[Vida de Freelancer] Como NÃO ganhar dinheiro

Continuando os posts anteriores da série VIDA DE FREELANCER, hoje vamos falar sobre DINHEIRO. Especificamente: como não ganhar dinheiro.

Como assim!? E lá vem textão de novo!

Esse é um assunto muito delicado. Por isso eu trato essa série como algo bem pessoal, com base nos meus anos de experiência como freelancer e também na troca de informações com profissionais de todo o mundo e de todos os perfis. E também, claro, com uma ajudinha da psicologia (nada como ter uma esposa psicóloga especialista em gestão de pessoas).  Por isso, por favor, sinta-se livre para discordar.

A verdade é: não existe fórmula para ganhar dinheiro.

Não há “5 passos”, nem “10 dicas”, nem “faça isso e fique rico”. Qualquer coisa parecida é tática para ganhar cliques e técnicas charlatãs. O que existe é uma série de padrões comportamentais que fazem você ter mais chance de trocar o seu trabalho por um certo valor monetário. É quase igual a uma entrevista de emprego convencional. Se você tentar seguir esses padrões, a menos que tenha muita sorte e não precise deles, suas chances de ganhar dinheiro aumentarão.

Padrão 1 - Bom relacionamento interpessoal

Na era da internet isso significa networking. Se conectar com as pessoas, trocar experiências, postar fotos, comentar os trabalhos alheios, ter um perfil no Vimeo, no Behance, no Dribbble, e por aí vai. Quando você se relaciona de forma franca, você gera empatia. Engajar pessoas é uma das grandes competências deste século.

Não significa que você tenha que ter um canal no You Tube e viver por likes, mas sim ser agradável e, resumindo, não ser otário(a). Participar da atividade dos seus colegas é a melhor forma deles participarem das suas e ter mais visibilidade para os seus trabalhos.

Padrão 2 - Ser bom no marketing pessoal

Pegando carona no Padrão 1, saber manejar o seu marketing pessoal também é uma habilidade a ser desenvolvida. Não se trata de fazer campanha publicitária em torno de si mesmo, à exemplo de algum ator de hollywood que, nas vésperas de lançamento de filme, se vê em volta de mensagens boazinhas para gerar buzz.

Marketing pessoal é ter um bom trabalho (Produto), tendo profissionalismo para lidar com valores (Preço), publicando e dialogando nos lugares adequados (Praça) e com a mensagem correta (Promoção). Esses são os chamados 4P’s do Marketing. Eles soam como uma metodologia antiquada quando falamos de 3D e Motion, mas eles servem inclusive para nosso contexto de trabalho. Em grande parte, tudo gira em torno desses quatro pontos.

Ou seja: tenha um bom trabalho, com profissionalismo no manejo dos clientes e do dinheiro, visando a audiência correta e postando nos sites adequados. E isso nos leva ao…

Padrão 3 - Seja sóbrio(a)

Este terceiro padrão é, provavelmente, o mais importante de todos e talvez o mais complicado de falar a respeito. Sobriedade é a característica do equilíbrio. Não apenas ser neutro como também saber lidar de forma neutra com seus potenciais clientes.

O mundo não gira em torno da publicidade, nem do design, tampouco do Motion e 3D. Nossos clientes normalmente têm horários de funcionamento rígidos, são de formações completamente diferente das nossas, e não entendem o nosso comportamento “diferenciado”. Inclusive, corremos o risco de soar… infantis. Sim, para a maioria das pessoas fora do espectro criativo, a forma como trabalhamos e lidamos com o nosso trabalho é infantilizada.

Não sou eu que estou dizendo isso, por favor. É a percepção de muita gente, talvez a maioria das pessoas e no mundo inteiro, como você pode conferir neste artigo da Adweek. Essa visão pode levar a um terreno perigoso: a falta de respeito.

 

“Veja como a Pepsi e a P&G falam com suas agências: como crianças no jardim de infância.”
– Christie Cordes

Quando você se coloca numa relação de trabalho mais como amigo do que como um profissional, há o risco de demorarem para pagar você. Afinal, você é amigo e compreende as dificuldades, não é mesmo? Há o risco de calote. Porque a gente fala tanto de amar o que faz que, quem ama, trabalha de graça. Se você só trabalha de madrugada, veja só, o trabalho pode ser para amanhã. Pior ainda quando não tem problema estar acordado e no escritório às 9:00h. Afinal, dormir é para os fracos. Há o risco de não lhe pagarem hora extra e te darem pizza em troca. Ops! Pois é.

Nada disso, é claro, é culpa sua ou nossa. Já é a cultura da indústria criativa. E toda cultura é feita de comportamentos repetidos e normatizados. E, acredite, Cultura Organizacional existe e é algo sério. Minha esposa, Psicóloga e Pós-Graduada em Gestão de Pessoas pela Fundação Getúlio Vargas, dedicou seu trabalho de conclusão de curso a explorar como as pessoas se relacionam com o ambiente de trabalho. O resultado pode ser assustador.

A maioria esmagadora dos profissionais precisa “gostar” da Cultura Organizacional da área criativa para sobreviverem. Porém, o modo de operar da profissão já está estabelecido e é um esquema que, para todo efeito, desrespeita o profissional até mesmo como ser humano. Resiliência se torna a competência mais necessária para o profissional criativo. E aí é preciso inventar ideologias para justificar e travestir o abuso: “ame o seu trabalho e não terá que trabalhar para o resto da sua vida”. Já ouviram essa?

E aí que, quando você é freelancer, ter sobriedade é ainda mais importante para tentar se colocar respeitável e respeitosamente no mercado. Porque você é apenas uma pessoa qualquer no meio do nada. Não há garantia de direito algum, nem férias, nem décimo, nem hora-extra. Também não tem um horário de trabalho definido. É você consigo mesmo, com sua própria organização. É importante que você passe a mensagem – indo do relacionamento interpessoal, do marketing pessoal, até a sobriedade – que você é um profissional sério.

Pronto! É exatamente o ponto onde quero chegar. Passar seriedade não é ser chato. É ser… profissional. Quem quer que lide com você, seja agência, estúdio, ou cliente direto, precisa entender que está lidando com um profissional sério.  É separar amizade de negócios. É usar a norma culta da língua para dialogar com as pessoas, porque ninguém quer soar infantil numa conversa de negócios. Você não quer parecer amador. Afinal, você não é amador. E isso para citar apenas poucos exemplos.

Então, que tal se comportar de maneira mais profissional? Você pode acreditar que tudo tem dado certo do exato jeito que as coisas estão e eu posso estar exagerando. Mas, acredite, pois já passei por isso: a amizade sempre acaba quando chega no dinheiro. Ninguém nunca deixou de ganhar dinheiro porque agiu sobriamente. Mas já deixaram de ganhar por não agir.

Quando você é sóbrio e dialoga de forma madura, e com profissionalismo, levando o seu trabalho de maneira séria e sem soar como uma brincadeira, um trampo, um favor, um job de madrugada, você tem muito mais chances de passar credibilidade. E credibilidade dá segurança.

Posso te dar um exemplo do que credibilidade representa? Recentemente, numa reunião, uma agência que trabalha comigo há 4 anos me falou de uma ferramenta no Gmail que agenda o envio de e-mails para qualquer hora e dia. Por que isso? Por que ele não acha interessante mostrar para o cliente que o trabalho foi concluído 22h da noite (que foi necessário acabar essa hora). A ideia que fica é de um trabalho feito na última hora, com pressa, sem planejamento e organização. Afinal, para a maioria das pessoas, a hora do expediente se encerra 18:00. E, fora do trabalho, há todo tipo de responsabilidade: parceiro(a), filhos, moradia e, também, o cuidado consigo mesmo.

Entenda que estou falando de chances. Não há regras. Tudo está nas probabilidades. Eu prefiro essa linha comportamental porque ela nunca, absolutamente nunca me deixou na mão. Mas quantos freelancers sem conseguir se sustentar, ou que reclamam de não serem pagos, a gente conhece?

Eu nunca falo de trabalho durante a noite ou no final de semana. Mesmo que esteja resolvendo alguma emergência, porque existem, não preciso mostrar para meus clientes e demais pessoas do meu círculo social que estou fazendo isso. É possível soar batalhador e dedicado, ou desorganizado e incompetente. Esta é a minha metodologia.

TL;DR – Então todo esse textão serve para justificar um ponto: sobriedade tem relação direta com a credibilidade que você passa. Você não trabalha apenas com outros designers, publicitários, ilustradores, diretores de arte e artistas. Você trabalha e convive também com advogados, psicólogos, médicos, arquitetos, professores, militares, aposentados, e por aí vai. E essa turma têm, via de regra, horários mais comerciais e todo um sistema de valores profissionais e até pessoais diferentes. Ou o mundo gira em torno apenas da área criativa?

Conclusão

Por fim: tenha um bom trabalho. Sem um bom portfólio, não importa qualquer padrão ou dica, você não vai ganhar dinheiro.

Poste seu trabalho nas redes sociais, nos sites de portfólio (comunique-se também em inglês). Troque ideias e informações com seus amigos, colegas e desconhecidos.

De repente, pode ser uma boa ideia ter o seu portfólio hospedado num domínio próprio. Ainda que as redes sociais estejam totalmente massificadas, algo exclusivo seu pode reforçar ideia de profissionalismo e credibilidade. Uma certa agência já teve que mostrar os trabalhos do “estúdio” (no caso, eu), para o cliente. Não soaria legal se fosse apenas um link de rede social.

Envie e-mails de apresentação pessoal para agências, estúdios e outros profissionais que contratam freelancers.

Mostre-se amistoso, educado e sóbrio. Há uma grande diferença de percepção entre “segue meus trampos” e “segue meus últimos projetos”.

Evite dialogar orçamentos e projetos através do Facebook ou WhatsApp. Lembre-se: antes de amigo você é um profissional. Com exceção, claro, quando há uma relação saudável e cúmplice entre você e seu cliente. Equilíbrio!

Se você tem um bom trabalho e tem bons contatos ou sabe prospectar clientes e parceiros, agindo com sobriedade acima de tudo, as suas chances de conseguir trabalho são altas.  Se você falta com alguma dessas coisas…  você não vai ganhar dinheiro.

E, claro, saiba dar o valor do seu trabalho, criar um orçamento, contrato, dar prazos. Ah, emita nota fiscal também. Mas isso a gente continua em outra postagem da série. 😊

 

 

Créditos das imagens: Jurgen Apelo , Surreal Name Given e Rodrigo Amorim

Sobre Dimitri Bastos

Designer gráfico freelancer atuando com Motion Graphics, 3D e ilustração, também professor e fundador da Academia Criativa. Nas horas vagas é aspirante a escritor e jogador de videogame. 😀 www.dimitribastos.com

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